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Home»Entretenimento»A inusitada origem do orelhão, que virou ‘estrela’ em ‘O Agente Secreto’
Entretenimento

A inusitada origem do orelhão, que virou ‘estrela’ em ‘O Agente Secreto’

dezembro 7, 2025Nenhum comentário0 Visitas


Orelhão foi usado em diversas cenas do filme O Agente Secreto para ajudar a recriar o cenário da década de 1970
Divulgação
Um elemento comum a muitos brasileiros ajudou a recriar o cenário da década de 1970 do filme O Agente Secreto — indicado pelo Brasil para concorrer ao Oscar 2026 — e se tornou um dos símbolos da produção. Trata-se do orelhão, o telefone público que por décadas ocupou as ruas do país.
A imagem de Marcelo (interpretado por Wagner Moura) usando um orelhão passou a representar o filme pelo mundo e é hoje marca registrada da produção.
Essa icônica cabine telefônica em formato de ovo, que chegou a ter mais de 50 mil unidades espalhadas pelo país, foi projetada por uma arquiteta que nasceu na China, mas viveu a maior parte da vida no Brasil: Chu Ming Silveira.
Seu design fez tanto sucesso que outros países também decidiram adotá-lo.
Em entrevista ao podcast Witness History, da BBC World Service, Alan Chu, filho de Chu Ming, compartilhou lembranças de sua mãe e de seu legado, que se tornou símbolo do Brasil.
“Eu lembro se sentir orgulho dela, porque ela tinha projetado algo que estava em todo lugar nas ruas, como as cabines de telefone em Londres, que se tornaram um símbolo do país, o mesmo aconteceu no Brasil com os orelhões”, diz Alan, que é arquiteto e mora em Brasília.
“E é muito interessante porque normalmente a gente importa esse tipo de coisa, as ideias, os designs. Mas o orelhão é uma criação nacional, é uma invenção brasileira. É o símbolo da nossa criatividade e design.”
Em 2014, Pelé autografou a cabine de um Orelhão na Avenida Paulista como parte de uma campanha para companhia telefônica
AFP via Getty Images
Da China para o Brasil
Chu Ming Silveira nasceu em uma família rica na cidade de Xangai, na China, em 1941. Seu avô foi ministro do último imperador chinês, Puyi.
“Eles eram considerados uma família nobre e tinham costumes ocidentais, como jogar tênis e dirigir carros”, conta Alan.
Seu pai serviu no exército durante a Guerra Civil Chinesa, mas após a vitória comunista em 1949, Chu, na época com 7 anos, e o resto da família foram forçados a deixar o país.
Inicialmente, a família queria se mudar para os Estados Unidos, mas Alan conta que seu avô era fascinado pela ideia de ter uma fazenda no Brasil.
“Eu soube que meus avós escutaram falar sobre a Amazônia e ficaram interessados. E também tinha a questão da distância, eles queriam viver em algum lugar distante. Mas eu acho que foi mais por causa da Amazônia que eles vieram”.
Depois de três meses viajando em um navio, a família chegou ao Rio de Janeiro. Logo se mudaram para São Paulo, onde se juntaram a uma crescente comunidade chinesa e japonesa no bairro de Pinheiros.
Chu estudou arquitetura na universidade e não demorou para conseguir um emprego na companhia telefônica brasileira.
A origem do Orelhão
Foi durante o período em que Chu trabalhava na companhia telefônica, em 1971, que ela criou um projeto que mudaria para sempre a comunicação no Brasil.
Alan lembra que, naquela época, não havia telefones públicos no Brasil. “Eles ficavam dentro das farmácias ou dos postos de gasolina e não tinha uma cabine para proteger o telefone.”
Antes de Chu aparecer, poucas famílias brasileiras tinham condições de comprar um telefone.
Tentativas anteriores de construir telefones públicos tinham causado problemas enormes. Cabines grandes foram vandalizadas, eram caras de se fazer e tomavam muito espaço.
Então, o trabalho de Chu foi encontrar uma solução barata, resistente a danos e visualmente agradável. E foi assim que surgiu o Orelhão.
“Nós tínhamos um na nossa casa. Era o protótipo, o primeiro. Ele era branco e ficava no nosso jardim”, lembra Alan.
O Brasil chegou a ter mais de 50 mil orelhões espalhados pelas cidades
AFP via Getty Images
Quando foi lançado, a cabine tinha outros nomes como Chu I e Tulipa. Mas foi por Orelhão que o telefone ficou conhecido pelo público.
Ele era leve e bonito visualmente, fornecia abrigo para o calor do Brasil e, mais importante: tinha o formato de um ovo.
“Foi algo inovador nesse sentido, porque era um projeto nacional. Foi projetado para o nosso país, para o nosso clima”, diz Alan.
O formato foi escolhido por causa da qualidade acústica. A ideia do design era que o ruído que entrasse na cabine fosse refletido para um ponto fora dela.
Isso protegia as pessoas do barulho e ajudava a fazer uma ligação sem muito ruído.
O orelhão foi um grande sucesso e mais de 50 mil foram construídos nas principais cidades do Brasil.
O sucesso foi tanto que adaptações do projeto foram instaladas em países ao redor do mundo, incluindo Peru, Colômbia, Paraguai, Angola, Moçambique e até mesmo na China.
Para Alan, o fato de ser algo incomum, chamava atenção das pessoas.
“Acho que há um componente de humor no objeto. É criativo, diferente.”
Reconhecimento
Pouco tempo depois, Chun deixou a companhia telefônica e foi trabalhar no setor imobiliário.
Mas foi só após a sua morte, em 1997, que as pessoas começaram a reconhecer seu trabalho.
E isso se deve, em grande parte, ao marido de Chu, Clóvis, que lançou um site com o nome dela.
“Percebemos que seria importante, no início dessa revolução da informação, organizar tudo isso para que se espalhasse da maneira certa, organizar documentos, fotografias e informações”, afirma Alan.
Em 2017, graças ao trabalho de Clóvis para promover o design de Chu, o Google fez uma homenagem a ela criando um doodle.
Alan diz que se sentiu honrado ao ver o desenho da mãe na página inicial do buscador.
Hoje, os orelhões já não são mais usados no Brasil, devido ao surgimento dos celulares. Mas eles permanecem como um símbolo da criatividade e inovação brasileira.
“Era muito comum para nós, para minha geração, um objeto natural na cidade porque não havia celulares. A gente usava muito. É parte da nossa memória.”
Na história do design brasileiro, Chu Ming tem seu lugar porque o orelhão foi algo muito único e importante.
Além disso, o fato de ser uma mulher à frente desse design, em uma época que eram poucas arquitetas, também é algo relevante para a história.

Fonte: G1 Entretenimento

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