Papa diz que Igreja deve admitir histórico de dominação masculina e abuso de mulheres

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Em um apelo a jovens católicos, o pontífice afirmou, ao mesmo tempo, que a instituição “não pode concordar com tudo que certos grupos feministas propõem”

Papa Francisco afirmou, em um texto divulgado nesta terça-feira (2), que a Igreja Católica tem que admitir seu histórico de dominação masculina e de abuso sexual de mulheres e crianças, além de restaurar a reputação com os jovens, ou corre o risco de se tornar “um museu”.

O texto de Francisco, de 50 páginas, traz suas reflexões sobre os trabalhos de uma reunião de bispos de um mês ocorrida em outubro, segundo a agência de notícias Reuters, que tratou do papel dos jovens na Igreja, que tem 1,3 bilhão de fiéis.

“Uma Igreja viva pode reagir prestando atenção às legítimas reivindicações das mulheres, que pedem maior justiça e igualdade e reconhecer uma longa trama de autoritarismo por parte dos homens, de sujeição, de várias formas de escravidão, abusos e violência machista”, disse o pontífice, de 82 anos.

“Com este olhar”, continua o texto, a Igreja “poderá fazer suas reclamações de direitos e dará, convictamente, a sua contribuição para uma maior reciprocidade entre homens e mulheres, embora não concorde com tudo o que propõem alguns grupos feministas”.

Alguns grupos de mulheres pedem o ordenamento feminino, que a Igreja descartou com o argumento de que Jesus só escolheu homens como apóstolos.

Jovens e internet

Francisco também exortou os jovens a não se desiludirem com o escândalo de abusos sexuais em torno da Igreja, mas a trabalharem com a maioria de padres e outros membros do clero que se mantiveram fiéis à sua vocação.

“Para ter credibilidade diante dos jovens, é preciso recuperar a humildade e simplesmente ouvir. Uma Igreja na defensiva, que perde a humildade, que deixa de escutar, que não permite ser questionada, perde a juventude e se torna em um museu “, escreveu.

Francisco também denunciou os interesses econômicos do mundo digital, capazes de manipular processos democráticos mediante a difusão de “fake news” e o incentivo de preconceitos e ódios.

“No mundo digital, estão em jogo enormes interesses econômicos capazes de realizar formas de controle tão sutis quanto invasivas, criando mecanismos de manipulação das consciências e do processo democrático. A proliferação de notícias falsas é uma expressão de uma cultura que perdeu o senso de verdade e submete os fatos a interesses particulares”, observou o pontífice.

O Papa alertou os jovens, ainda, sobre a pornografia, afirmando que ela distorce a percepção que o jovem tem da sexualidade humana. “Os espaços digitais não nos deixam ver a vulnerabilidade do outro e dificultam a reflexão pessoal. A tecnologia usada desta maneira cria uma realidade paralela ilusória que ignora a dignidade humana”, afirmou.

Também aproveita a oportunidade para alertar os jovens contra as ideologias que “desprezam a história” e que querem eliminar as “raízes” dos jovens, mas sem citar exemplos específicos.

“Ideologias de cores diferentes, que destroem (ou desconstroem) tudo o que é diferente, podem, desse modo, reinar sem oposições. Para isso, precisam de jovens que desprezam a história, que rejeitam a riqueza espiritual e humana que passa através das gerações, que ignoram tudo o que os precedeu”, enfatizou.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/04/02/papa-diz-que-igreja-deve-admitir-historico-de-dominacao-masculina-e-abuso-de-mulheres.ghtml